DIÁRIO - ANO 2003
Internacional
Liège/Bélgica
Começamos o ano, em fevereiro, no Festival de Liège, na
Bélgica, que tem por tradição apresentar espetáculos engajados, recebendo
artistas de várias partes do mundo que mergulham sua arte no que os tempos
presentes têm de mais perturbador. A Companhia apresentou AQUILO DE QUE
SOMOS FEITOS numa antiga cavalariça adaptada especialmente para o festival.
Num dos períodos mais frios do ano, com muita neve, tivemos um público
caloroso. Com o título “Corpo a corpo militante e insubmisso”, a crítica
local escreve: “… na sombra do Hangar Saint-Luc, esse sábado, a noite foi de
total beleza…vindos de um país onde dois terços da população vive com menos
de 160 Euros por mês, os membros da Companhia de Lia Rodrigues atraem
respeito e admiração: seu espetáculo é uma ode à resistência… e no final,
tendo ao fundo “Imagine” de John Lennon, os sete artistas, de mãos dadas,
exaustos, sonham, sob uma interminável tempestade de aplausos, com um mundo
melhor”.
Minneapolis/EUA
Em março, em pleno carnaval carioca, voamos para 15 graus
abaixo de zero rumo à cidade de Minneapolis, Estados Unidos, para mostrar
nosso trabalho no Walker Art Center, um dos principais centros de arte
contemporânea dos EUA. Foi uma parceria com um grande (nos dois sentidos da
palavra) amigo, o coreógrafo e ativista Patrick Scully que, do alto de seus
dois metros nos viu, por acaso, dançar no Condomínio Cultural, no Centro do
Rio de Janeiro, quando estava de passagem como turista pela cidade. Seu
entusiasmo, carinho e esforço se concretizaram nessa nossa ida a
Minneapolis e as apresentações no Patrick’s Cabaret. Fizemos parte de uma
grande mostra de arte contemporânea - “Como a Latitude se transforma em
Formas - a Arte na era da globalização” - que apresentou artistas
brasileiros como Cabelo, Marepe, Moreno Veloso e o grupo Corpo. Na sua
página na internet, o museu fala do espetáculo com entusiasmo: “Aquilo de
que somos feitos é uma experiência de dança e teatro que celebra o corpo
humano nú, tanto como objeto de beleza escultural quanto como um veículo de
complexos desejos espirituais, políticos e emocionais. Este impactante
trabalho combina o canibalismo cultural e o irreverente engajamento político
do movimento Tropicalista com as duras realidades do século 21 no Brasil”.
Miami/EUA
Ainda em março, a Companhia se apresentou no Festival Flabra
(Florida -Brasil) que, ao longo dos últimos anos, vem mostrando aos
norte-americanos artistas contemporâneos brasileiros, tendo a frente a
incansável Mary Luft, que realiza um importante intercâmbio de idéias. Sob
um calor escaldante, apresentamos AQUILO DE QUE SOMOS FEITOS na Dorsh Galery
(uma galeria de artes visuais que funciona num galpão com chão de cimento)
para uma platéia mais do que atenta, dois dias antes da guerra ao Iraque
ser declarada.
Brighton/Inglaterra
Em maio, sempre com o espetáculo AQUILO DE QUE SOMOS
FEITOS, fomos para a Inglaterra contando mais uma vez com o apoio do
Visiting Arts. A primeira parada foi na cidade balneária de Brigthon,
conhecida como “London by the sea” por estar a apenas uma hora da capital
inglesa e pela grande quantidade de turistas e agitações culturais. Foram 11
apresentações no teatro Komedia, todas lotadas.
Londres/Inglaterra - Impossível não fazer trocadilho. O The Place é o lugar
da dança contemporânea em Londres, reunindo uma escola, salas de ensaio e um
excelente teatro. Foram duas apresentações, com ingressos esgotados vários
dias antes da estréia.
Buenos Aires/Argentina
Na nossa segunda apresentação na América Latina,
participamos do Festival Internacional de Buenos Aires com FORMAS BREVES.
Realizado desde 1997, o Festival é bienal e conjuga teatro, dança, música e
artes plásticas. Mesmo com inúmeras dificuldades, Gabriela Casabé, sua
diretora, realizou um Festival impecável. Ela afirma: “Se estamos saindo de
um momento de crise, ele é também culturalmente excelente. A produção e o
público cresceram nos últimos meses”. FORMAS BREVES foi o único
representante das artes cênicas brasileiras.
Montreal/Canadá
Do sul da América do Sul, da bela cidade de Buenos Aires,
numa longa jornada, fomos direto para o norte da América do Norte, para
Montreal, no Canadá. Fomos surpreendidos por uma péssima recepção na
alfândega em Toronto, onde, mesmo com o convite do Festival e um caríssimo
visto de trabalho, fomos tratados como imigrantes ilegais e indesejáveis.
Mas a atenção amorosa e profissional de Dena Davida e da equipe do Tangente,
teatro de vanguarda onde apresentamos FORMAS BREVES, nos tranqüilizou. Foi a
primeira vez em seus 11 anos de existência que o Festival International de
Nouvelle Danse apresentou uma companhia brasileira. E qual não foi nossa
surpresa ao ganharmos o Prêmio do Júri Popular como o preferido pelo público
entre os 33 espetáculos assistidos. Em segundo lugar, nada menos que
William Forsythe com o Ballet de Frankfurt. A sempre precisa análise da
critica de dança Helena Katz sobre esse acontecimento (jornal O Estado de
São Paulo, 17/10/2003) é reveladora: “Evidentemente, trata-se de um fato
cultural muito relevante, cuja interpretação deve guardar distância do
ufanismo bobo. Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que quem está
recebendo essa distinção é uma companhia profissional de dança que viajou às
próprias custas, pagando as suas passagens (ao contrário das outras 32 que
participaram do mesmo festival). Festivais internacionais geralmente não
oferecem passagens porque se relacionam com governos que mantêm programas
dedicados ao envio das suas companhias como parte de sua política pública.
Num país como o Brasil, onde as políticas públicas para a dança forjam um
grande faz-de-conta (faz-de-conta que existe um mercado e faz-de-conta que a
companhia é uma microempresa saudável), a premiação da Lia Rodrigues
Companhia de Danças, na verdade, remete à urgência da retomada da discussão
da profissionalização do artista da dança no nosso país”.
Dublin/Irlanda
Atravessando o Atlântico, fomos direto para a capital da
Irlanda. Para um país com pouquíssima tradição em dança clássica e
contemporânea, convidar um espetáculo brasileiro de vanguarda foi um desafio
para o ESB Dublin Fringe Festival. Durante uma semana, AQUILO DE QUE SOMOS
FEITO foi apresentado em um teatro que já foi uma igreja e voltou a ser
teatro várias vezes. Considerado pelo The Irish Times como “o melhor
espetáculo de dança da cidade”, recebeu cinco estrelas e a observação de que
“nenhuma crítica pode fazer justiça a dança da companhia de Lia Rodrigues,
que precisa ser experimentada ao vivo, perto dos extraordinários bailarinos.
Não perca”.
Ennis/Irlanda - Ennis é uma pequena cidade no oeste da Irlanda. Em uma hora,
a pé, conhece-se toda a região. Se para Dublin já era um desafio, imaginem
para Ennis que nunca tinha apresentado uma atração internacional em seu
October Arts in Ennis. No único e moderno teatro da cidade, dedicado à
música, o público ficou dividido entre ficar chocado ou apaixonado por
AQUILO DE QUE SOMOS FEITOS. Foi o assunto da semana nos inúmeros pubs
locais.
Brasil
Com a sempre importante parceria do Sesc - São Paulo, nos apresentamos na
cidade de Ribeirão Preto (interior do estado de São Paulo) e na capital,
São Paulo, na mostra Latinidades no Sesc - Belenzinho e também como parte da
programação desse mesmo Sesc. Essas apresentações foram imprescindíveis para
financiar a nossa ida ao Canadá. Explico : o Patrocínio da Brasil Telecom é
um investimento na manutenção da Companhia (salários e infra-estrutura) e
não contamos com recursos para custear nossos deslocamentos pelo Brasil e
pelo exterior, assim utilizamos parte dos cachês recebidos por nossas
apresentações para o pagamento de passagens aéreas. A distância que separa o
Rio de Janeiro do Canadá parece pequena frente a que nos afasta, por
incrível que pareça, do resto do Brasil. Altíssimos custos de transporte,
ausência de equipamentos adequados para espetáculos e principalmente a falta
de políticas públicas para a circulação dos produtos artísticos fazem com
que uma turnê ao Norte, Nordeste ou ao Centro-Oeste pareça completamente
improvável. Assim, no ano de 2003, tivemos que cancelar nosso projeto de
circularmos por essas regiões. Porém dois festivais de dança e artes cênicas
no Nordeste conseguiram manter suas programações num ano especialmente
difícil de recursos para essas áreas e, assim, pudemos viajar com nosso
trabalho para Pernambuco e Paraíba. Pela primeira vez nos apresentamos em
Pernambuco, na oitava edição do Festival de Dança do Recife, realizado pela
prefeitura do Recife. Mostramos para um público curioso nossas duas
criações: FORMAS BREVES, no tradicional Teatro Santa Isabel e AQUILO DE QUE
SOMOS FEITOS, no Teatro Hermilo Borba Filho. A Paraíba é um estado muito
querido para nós. Duas intérpretes da Companhia, Micheline e Amália, têm por
lá suas raízes e é lá também, mais precisamente na cidade de Campina Grande,
que a admirável ‘cangaceira da cultura’, como é carinhosamente conhecida
Eneida Maracajá, realiza o Festival de Campina Grande, que já nos recebeu
por duas vezes e que é exemplo de resistência cultural. Nessa nossa segunda
viagem para João Pessoa, apresentamos AQUILO DE QUE SOMOS FEITOS no lindo
Teatro Santa Rosa, no IX Festival Nacional de Arte - João Pessoa, realizado
pela Fundação Espaço Cultural da Paraíba.
No mês de novembro, participamos do Projeto Raio X, projeto do Curso de
Dança da Escola de Comunicação e Artes da UniverCidade/Rio de Janeiro, com a
curadoria do crítico de dança e professor Roberto Pereira. Foi uma
oportunidade única e enriquecedora poder falar sobre o processo de criação
de AQUILO DE QUE SOMOS FEITOS e FORMAS BREVES com a mediação especial de
Silvia Soter. Também em novembro, voltamos a São Paulo, no Sesc Vila
Mariana, dessa vez para participar do Circuito Brasil Telecom de Dança, que
reúne a cada ano as criações das companhias patrocinadas pela Brasil
Telecom. Para encerrar o ano, finalmente nos apresentamos no Rio de Janeiro,
no Teatro Villa-Lobos. Nossa temporada de três semanas é significativa,
pois, como se sabe, um espetáculo de dança raramente consegue uma pauta de
mais de cinco dias nos palcos da cidade. Os ingressos a R$1 traduzem o
compromisso da Companhia com a formação de platéias, buscando ao máximo
oportunidades de realizar o encontro com o público – momento que fecha o
ciclo da criação e o realimenta. Grande parte das pessoas que trabalham com
a cultura – incluindo programadores de espaços destinados às artes cênicas –
acredita que a dança contemporânea se destina a um público restrito.
Espetáculos que se colocam fora dos cânones clássicos do balé ou que
contrariam as expectativas do público seriam destinados aos modernos e
intelectualizados. Um grupo, na verdade, pouco mais numeroso que a classe
artística. O trabalho da Lia Rodrigues Companhia de Danças tem provado o
contrário. Durante a longa temporada do ano de 2000 de AQUILO DE QUE SOMOS
FEITOS em vários espaços no Rio, com ingresso a preço popular - R$ 1,99 –
havia uma significativa presença de estrangeiros à cena da dança –,
reuniu-se gente que talvez fosse assídua nas casas de espetáculo caso
pudesse pagar por isso.
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