DIÁRIO ANO 2002
Internacional
Lisboa/Portugal
Em janeiro de 2002, estreamos em Lisboa BUSCOU-SE PORTANTO FALAR A PARTIR DELE E NÃO SOBRE ELE, a primeira parte do que viria ser o
espetáculo FORMAS BREVES, uma homenagem ao artista Oskar Schlemmer encomendada pelo Culturgest, uma das mais conceituadas instituições
portuguesas.
Avignon/França
Como numa página de internet, um link leva a outro. De apresentação em apresentação, de viagem em viagem, a Companhia vai encontrando janelas para novos públicos, leituras diferentes, rotas de navegação. Foi assim que surgiu o convite para que a Lia Rodrigues Companhia de Danças se apresentasse no Festival d’Avignon, um dos maiores festivais de artes cênicas da Europa.
Diretora do Centro Coreográfico Nacional de Rennes e da Bretanha, a francesa Catherine Diverrès também havia sido convidada pelo Culturgest para conceber uma homenagem a Schlemmer.
Depois de assistir a FORMAS BREVES ela recomendou à direção de Avignon que convidasse a Companhia para se apresentar ao lado do seu espetáculo “San (lointain)”, já programado para o Festival.
Um representante do Festival foi às pressas para Lisboa para ver a coreografia brasileira e de imediato fez o convite à Companhia para que fizesse parte da mostra oficial.
Reunindo 40 espetáculos na mostra oficial e mais de 700 na paralela, Avignon é a grande vitrine das artes cênicas na Europa.
É para lá que afluem produtores culturais de todo o mundo, para ver e escolher novos trabalhos, assim como milhares de turistas. Foram quatro apresentações, cada uma assistida por um público de cerca de 600 pessoas.
A imprensa francesa derramou-se em elogios. E mesmo os que vêem com preconceito as criações de países como o Brasil tiveram de rever seus conceitos. Como o francês que veio perguntar ao grupo, após a apresentação: “Onde vocês aprenderam a dançar assim? Fizeram escola na Europa?”
Edimburgo/Reino Unido
Em agosto de 2002, apresentamos AQUILO DE QUE SOMOS FEITOS, no Fringe Festival, em Edimburgo. “O maior festival de artes cênicas e música do mundo”. É assim que a imprensa européia costuma definir o Festival de Edimburgo, uma gigantesca celebração da cultura que, no ano de 2002, atraiu mais de 900 mil pessoas. Os números da festa impressionam: são cerca de 150 espetáculos na programação oficial, incluindo muitos eventos grandes, em lugares abertos. Outros 1600 fazem parte da mostra paralela, o chamado Fringe Festival, que acontece em quase 200 espaços espalhados pela
capital escocesa. O Fringe – o nome se refere a quem pensa e age de forma incomum, inusitada – é considerado a melhor seleção do Festival de
Edimburgo. Ser premiado como um dos destaques deste festival é motivo de orgulho para qualquer criador, seja europeu, americano ou brasileiro. Pois
foi justamente o que aconteceu com a Lia Rodrigues Companhia de Danças, escolhida pelo jornal The Herald para receber o prêmio Bank of Scotland
Herald Angels. “A nudez no palco não é novidade no Fringe. Mas a nudez, tal qual usada pela coreógrafa brasileira Lia Rodrigues, é absolutamente
rara em qualquer parte. Lia Rodrigues não sai fazendo provocações vazias. Seu objetivo é revelar verdades sobre identidade e comportamento por meio de corpos nus e vestidos”, escreveu a crítica do Herald, Mary Brennan. O convite à Companhia foi feito pelos diretores da Mostra Aurora Nova. O
curador, Wolfgang Hoffman, do Centro Cultural Fabrik Potsdam (Alemanha), seleciona espetáculos pelo seu impacto, originalidade e qualidade. Mais do
que uma mostra, a Aurora Nova é uma cooperativa de artistas, liderada pelo Fabrik e pelo Komedia, de Brighton, Inglaterra. As companhias que se
apresentam na mostra contribuem com uma cota para a montagem dos espaços e pagamento de pessoal técnico e administrativo. Uma parte do lucro é dividida igualmente entre os grupos.
No caso da Lia Rodrigues Companhia de Danças, esta contribuição foi feita pelo Visiting Arts, instituição inglesa destinada a promover a apresentação
de artistas internacionais na Grã Bretanha.
Potsdam/Alemanha
O tour internacional da Companhia se estendeu à Potsdam, cidade da Alemanha próxima a Berlim. Potsdam é uma cidade onde a Lia Rodrigues Companhia de Danças se sente um pouco em casa. E não é só porque em 2002 o grupo se apresentou pela segunda vez na cidade, com FORMAS BREVES e AQUILO DE QUE SOMOS FEITOS. Nem só pela recepção calorosa do público. Nem porque a apresentação foi, mais uma vez, no Fabrik, uma antiga fábrica abandonada onde hoje funciona um vibrante centro cultural. Há um detalhe íntimo na relação da Companhia com Potsdam: o grupo só foi à Alemanha porque a cidade era a terra natal de uma bisavó de Lia Rodrigues. Planejando a turnê da Companhia pela Europa do ano de 2001, Lia resolveu pesquisar na internet sobre a cidade de seus antepassados. Acabou descobrindo o site do Fabrik e enviou um e-mail para o centro cultural apresentando o espetáculo.
“Foi um de muitos e-mails que enviei naquela época. Pois só este resultou em uma apresentação”, lembra Lia. Desde então, a Companhia construiu uma parceria com o centro cultural. Wolfgang Hoffman, um dos diretores do Fabrik, foi o elo que possibilitou a apresentação da Companhia em 2002 em
Edimburgo e um convite para o Festival de Brighton, em 2003.
Lima/Peru
Da Alemanha, a Companhia voltou ao Brasil, apenas para embarcar
dois dias depois para o Peru e participar do Festival Internacional de Dança
e Teatro de Lima. Pela primeira vez, nos apresentamos na América Latina. Tão
próximos geograficamente, nosso vizinhos do Cone Sul são mantidos à
distância pela escassez de recursos e de políticas culturais que favoreçam a
integração. Pequeno e realizado com poucos recursos, o Festival de Lima é
bem organizado e recebe cobertura atenta da imprensa. A Companhia dançou
AQUILO DE QUE SOMOS FEITOS no Teatro Segura – o equivalente peruano ao
Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Os slogans políticos do espetáculo, que
invoca Che Guevara, pareceram ainda mais significativos ao ecoar contra as
paredes daquele símbolo da elite peruana.
Brasil
Em 2002, a conjunção do patrocínio da Brasil Telecom com o projeto EmCena
Brasil, do Ministério da Cultura, e o apoio do Sesc Nacional, permitiram
cruzar esta fronteira e apresentar nosso trabalho em Palmas (Tocantins), Rio
Branco (Acre) e Porto Velho (Rondônia). Fomos recebidos por um público
respeitoso e interessado, claramente ansioso por ter contato com a cena
artística de outros estados. A Companhia também realizou espetáculos nas
excelentes instalações do Sesc de Vila Mariana, em São Paulo, e no Teatro
João Caetano, no Rio de Janeiro, no dia 5 de outubro, dentro do Circuito
Brasil Telecom de Dança. FORMAS BREVES foi mostrado tanto no Sesc de São
João de Meriti, na Baixada Fluminense, quanto no Teatro Vila Velha, durante
o Mercado Cultural de Salvador, Bahia. Com a mesma disposição, a Companhia
embarcou rumo a João Pessoa e ao norte do Brasil, para dançar em cidades
normalmente fora das restritas rotas por onde circulam as produções
artísticas brasileiras. Dançar neste Brasil que parece tão distante sempre
traz alegria – e algumas surpresas. Em João Pessoa, durante um ensaio, o
palco cedeu alguns centímetros, dando um enorme susto na Companhia. Na noite
da apresentação do VIII Festival Nacional de Arte (Fenart), em 30 de maio,
choveu. As goteiras eram tantas que foi preciso usar uma capa para operar a
mesa de som. Nos bastidores, uma enxurrada descia as escadas. Em outubro, a
Companhia desembarcou em Palmas, Tocantins. Era a primeira vez em que os
bailarinos iam ao Norte do Brasil e o ar estava cheio de expectativa sobre
como seriam recebidos os espetáculos. A recepção não poderia ter sido
melhor. O público era respeitoso e interessado e a procura pelas oficinas
práticas e teóricas que aconteceram foi grande. O mesmo ocorreu em Rio
Branco (Acre) e em Porto Velho (Rondônia), as outras paradas da turnê. Em
compensação, às vezes, as condições eram precárias. Os espetáculos foram
mostrados em salas pequenas, pisos de carpete e até em uma casa de festas.
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