Maputo, Moçambique
junho de 2001
viagem pelo projeto "dançar o que é nosso" - lisboa-portugal


Quando o sol virou lua em Moçambique
1- Chegando
Ainda estou digerindo minha estadia em Maputo, Moçambique.
Tenho a impressão que fiz uma viagem para um lugar dentro da minha história.
Me vi pensando em todos os clichês que sempre rondam os brasileiros : eles dançam o tempo todo, desde sempre, eles cantam , eles tocam, é um povo dançante.
Me flagrei com olhos que percebo no estrangeiro chegando ao Brasil : corpos belíssimos, cabelos em penteados os mais variados, muitas tranças, de todos os tamanhos e jeitos, uma sensualidade no cheiro e nas cores, tudo em
movimento.
Falam sobre dança e dançar de uma maneira tão diferente do que a gente fala.
Todos dizem : 'sou bailarino', 'sou bailarina', ' tenho 14 anos e danço há 4 anos', 'tenho 18 anos e danço há 10 anos'.
No primeiro dia o tempo da aula parecia nunca passar.
Preparei milhares de folhas escritas, com músicas, exercícios, propostas.
E sentada ali na frente dos alunos , todos me olhando com olhos de jabuticaba,tudo se misturou.
O vento esparramou meus papéis e pensamentos, esqueci completamente o que tinha tão organizado.
E aí tive que usar aquilo que acho que é o que mais treino na vida : a criatividade instantanea.
Quando acabei meu primeiro dia de trabalho estava exausta.
Entrei no meu pequenissimo quarto no residencial Hoyo-Hoyo ( em dialeto
local : 'seja bem vindo') , deitei metade do corpo na cama, segurando na
mão o papel com os nomes das minhas 2 turmas de quase 60 alunos, e adormeci, assim.
Acordei assustada ainda com a lista na mão e demorei para entender
onde é que eu estava .Parecia a cidade de Catas Altas em Minas Gerais.
Tem o mesmo barulho, o mesmo jardinzinho com flores e bananeiras.
E assim foram os primeiros dias: sem conseguir chão para pisar.
Explico .Queria continuar o caminho que eu havia pensado em propor aos
alunos para trabalharmos nesses 15 dias de oficina: construir um país ,
inventar um lugar fruto do nosso encontro.País onde as sensibilidades se
tocam, as diferenças e as semelhanças se refletem como num espelho e
projetam uma nova imagem , outra possibilidade. Sonho.
Lembro o quanto foi dificl nos primeiros dias ler os sinais naqueles rostos.
São outros sinais. Eu não via nada.Usei a leitura dos cegos : tocar.
Então alguma coisa começou a aparecer.
Foi um desafio, tive que virar e revirar meus pré-conceitos, minhas
convicções e saberes.
Mas existe algo mais maravilhoso do que poder ser confrontada, ficar no
lugar do 'não saber' e deixar que aconteca a mágica da re-invenção, da
criação?
Construir esse lugar 'entre', lugar possibilidade, lugar futuro, lugar mestiço.


2- Capulanas
Maputo parece interior da Bahia, interior do Piaui, bairro pobre de São
Paulo, Rio, qualquer cidade brasileira.A identificação é imediata.Só que tem
uma diferença.
Então me dei conta : todos eram negros. Em todos os lugares . Brancos são
uma pequena minoria.E foi mesmo como cair de cabeça na imensa
invisibilidade do negro na sociedade brasileira.Racismo entranhado , forte e
viscoso.Completa marginalidade.
Sei que estou repetindo o que se fala, mas estar lá em Moçambique me fez ver
que sim, se deve repetir , repetir, falar e falar. Porque nada ainda mudou.
No Brasil os negros e a maioria da população brasileira são invisíveis.
Não contam, não valem. Simplesmente não existem . São numeros e siglas ,
PIBs, porcentagens.
Só que atrás de cada numerozinho daqueles está uma pessoa , com olhos
brilhantes, boca, mãos, capacidades infinitas, que pensa, que deseja, que
deveria ter condições dignas de vida, que deveria poder escolher e decidir.
Faço aqui uso das palavras do historiador José Murilo de Carvalho :
"Como dizia Joaquim Nabuco, a escravidão brasileira foi infinitamente mais
inteligente do que a norte-americana, na medida em que não respeitou
barreiras raciais. Ela permeava a sociedade de alto a baixo. Nem todos eram
escravos, mas todos podiam ter escravos, até os preoprios escravos. a
abolição não tirou a escravidão das cabeças das pessoas, os novos cidadãos
eram mestiços de senhor e escravos, incapazes de absorver a ideeia de
liberdade civil, aquela que exige a liberdade de todos como garantia da
liberdade de cada um. Ao ex-senhor não interessava a cidadania dos
ex-escravos, estes se viam enredados nas teias deixadas pela astúcia da
escravidnao, com seu paternalismo, seu clientelismo, sua aparente tolerancia
racial. Esses valores e múltiplas hierarquias sociais mantiveram até hoje o negro , e sobretudo, a mulher negra no estrato inferior da sociedade."
Penso em cores . Penso no arco-iris das cores estampadas nas capulanas .
Capulanas são panos que servem para tudo : para amarrar bebê nas costas e
'de banda' - eu também carregava assim meus 3 bebês, as índias me ensinaram igualzinho - serve para virar saia, para coberta para o frio, chale, para enfeitar , ficar bela e colorida .
No ultimo dia de aula, minhas alunas me levaram até o banheiro e me disseram : '- vamos te arrumar, para a professora ficar bonita!' e me vestiram com saias sobrepostas e uma bela capulana amarrada na cabeça ao jeito das
moçambicanas do norte.
E lá fui eu , agora sim, bela aos olhos deles!
Amarelo ouro, vermelho sangue, verde esmeralda, azul turqueza,o negro
onipresente e belo. Faiscante, brilhante, reluzente.

3-Ida ao Chipamanini :
É um mercado popular, e quando se entra é labirinto de pequenas ruelas,
roupas,todas as marcas do mundo sendo escancaradamente apropriadas e
misturadas com as carnes, peixes, frutas, muitas máquinas de costura
antigas onde se faz e se arruma roupa na hora, bijouterias, materiais de
magia, gente, muita gente.
Milhares de barraquinhas de madeira, cobertas por panos e tudo coberto por
uma camada de pó.Parece que choveu cinza por cima de tudo.

4-Chapas :
São o meio mais popular de transporte , onde se paga 3.000,00
Meticais ( Metical é o nome da moeda de lá que vale.... quer dizer não vale.
Mas mais ou menos 10.000 meticais equivalema 1/4 de dólar).
São Vans que passam em todos os lugares sem ponto fixo.
Tem o motorista e um ajudante que vai com a porta aberta gritando o
itinerário.
O mais engraçado é que em Moçambique se dirige como na Inglaterra : o
motorista do lado direito.Alguma coisa em comum.
Então eles vão lotando e lotando até ser quase impossivel entrar. Mas sempre
se dá um jeitinho e entra mais um, mais uma sacola, mais uma mãe com
criança.
As gentes caladas, umas por cima das outras, lugar em diagonal, isto é , por
cima de alguém, com espaço para apenas um dos pés. Mas é impossivel cair :
você fica praticamente ancorado por todos os lados.

5-Eclipse
Passei 7 horas inesqueciveis numa antiga Praça de Touros, onde aconteceu uma grande festa da musica para comemorar o eclipse solar.
Fiquei com meus alunos, todos se revezando em atenções.
Olhava para um lado,alguém gritava - "olá professora lia" , olhava para o outro -'professora lia, aqui aqui!' Vinham falar comigo, conversar . Não fiquei um minuto só. Eles me cuidavam com um cuidado discreto, amoroso.Me ofereciam sorvete, água , me ensinavam danças e musicas.
Inesquecível : um grande estádio, um céu muito azul, 5.000 mil moçambicanos de óculos também azuis com lentes prateadas , especial para ver eclipse,voltados para o mesmo lado.Nem os pouquissimos e truculentos guardas com metralhadoras apontadas conseguiam conter aquela multidão risonha e dançante .
Pulamos as arquibancadas, invadimos a pista, perto do palco e foi uma festa : o sol virando lua na tarde em Moçambique!

6-nome das avenidas :
Depois da guerra da independencia conquistada em 1975, mais 10 anos de devastadora guerrilha financiada pelos interesses americanos. Tentativa vitoriosa de sabotar qualquer possibilidade de construção de uma nova ordem socio-economica , de um país mais justo.
Em 1992 , foi assinado um acordo de paz .O modelo é o mesmo : fortalecimento de uma pequeníssima classe dominante, corrupção generalizada no governo, abertura total e irrestita ao capital estrangeiro, pobreza absoluta da populacão moçambicana.
Andando pelas ruas de Maputo leio os nomes das avenidas , ruas e praças: Mao Tsé Tung, Karl Max, Hegel, Lenin.
Foi numa delas que sou abordada por um homem com um bebê de mais ou menos 1 ano e o coloca no chão , na minha frente, e me oferece , e diz : -'leva prá você. Quer levar? leva!' Ante minha surpresa ele ri e carrega de novo o bebê e vai tranquilamente embora, rindo .
O bebê me olha por trás do ombro, me examina, me vasculha a alma .Levo ele comigo para sempre.



7- o que exportamos para Moçambique :
Novelas brasileiras , que eles adoram tanto que até alugam em locadoras de video os capitulos que já passaram para poder rever varias vezes. ser brasileira em Moçambique já é contar de partida com uma simpatia.
De alguma forma somos ligados aos personagens de novela. Eles falam do Brasil como uma terra paradisíaca, linda, opulenta e rica.
Um fim de tarde de domingo , a beira mar, uma multidão cantando e dançando : um tapinha não dói,tá dominado, dança da bundinha. Ao fundo, impassível, o oceano Indico.

8- No hospital
Afonso, um de meus alunos queridos, no segundo dia de aula, se feriu : num exercício feito com força total ele acabou no chão abrindo o queixo. Lá fui eu correndo com ele e mais uma das alunas até o hospital público.
Foram 2 horas de aperto no coração : não posso acreditar que se possa suportar tanta falta de tudo.Falta remédio, falta higiene, mínima, falta médico, falta, falta.
A aids se espalha indiscrimidamente, perversamente , de mãos dadas com essa falta.
Isso também faz parte do mesmo projeto : acabar com esse continente de uma vez, assim, sem precisar , mais uma vez, usar guerrilha e armas . Muito mais facil , assim como dar roupas contaminadas com sarampo para os indios brasileiros, assim como colocar preços impossiveis nos remédios , assim como não ter escola, não ter livro, não ter .
Ainda José Murilo de Carvalho :
" Joaquim Nabuco dizia no século 19 que escola e senzala eram pólos que se repeliam. Hoje pode se dizer que a escola e desigualdade se repelem. São resultados dessa pesquisa: a escola melhora a percepção dos direitos, aumenta o senso crítico, incentiva a participação política, melhora a qualidade do voto. Não foi por acaso que chegamos ao século 21 com estatísticas tão vergonhosas de analfabetismo, sobretudo de adultos. Educar o povo é perigoso. Basta educar a elite. Os colonizadores portugueses criaram essa regra, os colonizadores internos a consolidaram."

9 - Despedida
Em Moçambique me senti em casa . Numa casa antiga que parece que eu não visitava há muito tempo.
Pensei : como vou viver sem nunca mais olhar para meus alunos queridos, e ser olhada daquela forma imensa e generosa? Como vou viver longe desse lugar que é , sim , um pouco a minha casa?
Me olhei no espelho. Me vi a pele negra, me vi a pele branca, me vi a pele misturada e brasileira.